Conto, A ltima receita, 1875

A ltima receita



Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.



Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, setembro de 1875.

A viva Lemos adoecera; uns dizem
que dos nervos, outros que de saudades do marido. Fosse o que fosse, a verdade
 que adoecera, em certa noite de setembro, ao regressar de um baile. Morava
ento no Andara, em companhia de uma tia surda e devota. A doena no parecia
coisa de cuidado; todavia era necessrio fazer alguma coisa. Que coisa seria?
Na opinio da tia um cozimento de altia e um rosrio a no sei que santo do
cu eram remdios infalveis. D. Paula (a viva) no contestava a eficcia dos
remdios da tia, mas opinava por um mdico.

Chamou-se um mdico.

Havia justamente na vizinhana um
mdico, formado de pouco, e recente morador na localidade. Era o Dr. Avelar,
sujeito de boa presena, assaz elegante e mdico feliz. Veio o Dr. Avelar na
manh seguinte, pouco depois das oito horas. Examinou a doente e reconheceu que
a molstia no passava de uma constipao grave. Teve entretanto a prudncia de
no dizer o que era, como aquele mdico da anedota do bicho no ouvido, anedota
que o povo conta, e que eu contaria tambm, se me sobrasse papel.

O Dr. Avelar limitou-se a torcer o
nariz quando examinou a enferma, e a receitar dois ou trs remdios, dos quais
s um era til; o resto figurava no fundo do quadro.

D. Paula tomou os remdios como
quem no queria deixar a vida. Havia razo. Apenas dois anos fora casada, e
contava apenas vinte e quatro anos. Havia j treze meses que lhe morria o
marido. Apenas entrara no prtico do matrimnio.

A esta circunstncia  justo
acrescentar mais duas; era bonita e tinha alguma coisa de seu. Trs razes para
agarrar-se  vida como o nufrago a uma tbua de salvao.

Uma nica razo haveria para que
ela aborrecesse o mundo: era se tivesse realmente saudades do marido. Mas no
tinha. O casamento fora um arranjo de famlia e dele prprio; Paula aceitou o
arranjo sem murmurar. Honrou o casamento, mas no deu ao marido nem estima nem
amor. Viva dois anos depois, e ainda moa,  claro que a vida para ela
comeava apenas. A idia de morrer seria para ela no s a maior de todas as
calamidades, mas tambm a mais desastrada de todas as tolices.

No quis morrer nem caso era de
morte.

Os remdios foram tomados
pontualmente; o mdico mostrou-se assduo; dentro de poucos dias, trs a
quatro, estava restabelecida a interessante enferma.

De todo?

No.

Quando o mdico voltou no quinto
dia, achou-a sentada na sala, envolvida em grande roupo, com os ps numa
almofada, o rosto extremamente plido, e muito mais ainda por causa da pouca
luz.

O estado era natural em que se
levantava da cama; mas a viuvinha alegou ainda umas dores de cabea, a que o
mdico chamou nevralgia, e uns temores, que foram classificados no captulo dos
nervos.

 Sero graves molstias?
perguntou ela.

 Oh! no, minha senhora,
respondeu Avelar, so achaques aborrecidos, mas no graves, e geralmente
prprios de doentes formosas.

Paula sorriu com um ar to triste
que fazia duvidar do prazer com que ouviu estas palavras do mdico.

 D-me porm remdios, no?
perguntou ela.

 Sem dvida.

Avelar receitou efetivamente
alguma coisa e prometeu voltar no dia seguinte.

A tia era surda, como sabemos, no
ouvia nada da conversa entre os dois. Mas no era tola; comeou a reparar que a
filha ficava mais doente quando se aproximava a chegada do mdico. Alm disso
nutria dvidas srias acerca da aplicao exata dos remdios. O certo  porm
que Paula, to amiga de bailes e passeios, parecia realmente doente porque no
saa de casa.

Notou igualmente a tia que, pouco
antes da hora do mdico, a sobrinha fazia uma aplicao mais copiosa de
p-de-arroz. Paula era morena; ficava muito branca. A meia luz da sala, os
xales, o ar mrbido tornavam-lhe a palidez extremamente verossmil.

A tia no parou nesse ponto; foi
ainda alm. No era mdico o Avelar? Naturalmente devia saber se realmente
estava enferma a viva. Interrogando o mdico, asseverou que a viva estava
muito mal, e prescreveu-lhe o mais absoluto repouso.

Tal era a situao da enferma e do
facultativo.

Um dia em que este entrou achou-a
folheando um livro. Estava com a palidez de costume e o mesmo ar abatido.

 Como vai a minha doente? disse
familiarmente o Dr. Avelar.

 Mal.

 Mal?

 Horrorosamente mal... Que lhe
parece o pulso?

Avelar examinou-lhe o pulso.

 Regular, disse ele. A tez est
um tanto plida, mas os olhos parecem bons... Houve algum ataque?

 No; mas sinto-me desfalecida.

 Deu o passeio que lhe
aconselhei?

 No tive nimo.

 Fez mal. No passeou e est
lendo...

 Um livro inocente.

 Inocente?

O mdico pegou no livro e
examinou-lhe a lombada.

 Um livro diablico! disse ele
atirando-o para cima da mesa.

 Por qu?

 Livro de poeta, livro para
namorados, minha senhora, que  uma casta de doentes terrveis. No se curam
eles; ou raramente se curam; mas h pior, que  adoecerem os sos. Peo-lhe
licena para confiscar o livro.

 Uma distrao! murmurou Paula
com uma doura capaz de vencer um tirano.

Mas o mdico mostrou-se firme.

 Uma perverso, minha senhora! Em
ficando boa pode ler se quiser todos os poetas do sculo; antes, no.

Paula ouviu esta palavra com
singular, mas disfarada alegria.

 Parece-lhe ento que estou muito
doente? disse ela.

 Muito, no digo; Tem ainda um
resto de abalo que s pode desaparecer com o tempo e um regmen severo.

 Severo demais.

 Mas necessrio...

 Duas coisas lastimo sobre todas.

 Quais?

 A pimenta e o caf.

 Oh!

  o que lhe digo. No tomar caf
nem pimenta  o limite da pacincia humana. Quinze dias mais deste regmen ou
desobedeo ou expiro.

 Nesse caso, expire, disse Avelar
sorrindo.

 Acha melhor?

 Acho igualmente mau. O remorso,
porm, ser meu s, enquanto que se V. Ex. desobedecer ter os seus ltimos
instantes amargurados por um tardio arrependimento. Melhor  morrer vtima que
culpada.

 Melhor  no morrer nem culpada
nem vtima.

 Nesse caso no tome pimenta nem
caf.

A leitora que acaba de ler esta
conversa, admirar-se-ia muito se visse a nossa doente nesse mesmo dia ao
jantar: teve pimenta  farta e bebeu excelente caf no fim. No admira porque
era o seu costume. A tia admirava-se com razo de uma doena que consentia tais
liberdades; a sobrinha no se explicava cabalmente a este respeito.

Choviam convites de jantares e
bailes. A viuvinha recusava-os todos por causa do seu mau estado de sade.

Foi uma verdadeira calamidade.

Entraram a chover as visitas e
bilhetes. Muitas pessoas achavam que a doena devia ser interna, muito interna,
profundamente interna, visto que lhe no apareciam sinais no rosto. Os nervos
(eternos caluniados!) foram a explicao que geralmente se deu  singular
molstia da moa.

Trs meses correram assim, sem que
a doena de Paula cedesse uma linha aos esforos do mdico. Os esforos do
mdico no podiam ser maiores; de dois em dois dias uma receita. Se a doente se
esquecia do seu estado e estava a falar e a corar como quem tinha sade, o
mdico era o primeiro a lembrar-lhe o perigo, e ela obedecia logo entregando-se
 mais prudente inao.

s vezes zangava-se.

 Todos os senhores so uns
brbaros, dizia ela.

 Uns brbaros... necessrios,
respondia Avelar sorrindo.

E acrescentava:

 Eu no direi o que so as
doentes.

 Diga sempre.

 No digo.

 Caprichosas?

 Mais.

 Rebeldes?

 Menos.

 Impertinentes?

 Sim. Algumas so impertinentes e
amveis.

 Como eu.

 Naturalmente.

 J o esperava, dizia a viva
Lemos sorrindo. Sabe por que razo lhe perdo tudo?  porque  mdico. Um
mdico tem carta branca para gracejar conosco; isso mesmo nos d sade.

Neste ponto levantou-se.

 Parece-me at que j estou
melhor.

 Parece e est... quero dizer,
est muito mal.

 Muito mal?

 No, muito mal, no; no est
boa...

 Meteu-me um susto!

Seria realmente zombar do leitor o
explicar-lhe que a doente e o mdico estavam a pender um para o outro; que a
doente sofria tanto como o Corcovado, e que o mdico conhecia cabalmente a sua
perfeita sade. Gostavam um do outro sem se atreverem a dizer a verdade,
simplesmente pelo receio de se enganarem. O meio de se falarem todos os dias
era aquele.

Mas gostavam eles j antes da
fatal constipao do baile? No. At ento ignoravam a existncia um do outro.
A doena favoreceu o encontro; o encontro do corao; o corao favorecia desde
logo o casamento, se tivessem caminhado em linha reta, em vez dos rodeios em
que andavam.

Quando Paula ficou boa da
constipao adoeceu do corao; no tendo outro recurso fingiu-se doente. O
mdico, que pela sua parte desejava isso mesmo exagerou ainda as invenes da
suposta enferma.

A tia, sendo surda, assistia
inutilmente aos dilogos da doente com o mdico. Um dia escreveu a este
pedindo-lhe que apressasse a cura da sobrinha. Avelar desconfiou da carta a
princpio. Seria uma despedida? Podia ser pelo menos uma desconfiana.
Respondeu que a molstia de D. Paula era, aparentemente insignificante, mas
podia tornar-se grave sem um regmen severo, que ele lhe recomendava sempre.

A situao, entretanto,
prolongava-se. A doente estava cansada da doena, e o mdico da medicina. Ambos
eles comearam a desconfiar que no eram mal aceitos. O negcio entretanto no
caminhava muito.

Um dia Avelar entrou triste em
casa da viva.

 Jesus! exclamou sorrindo a
viva; ningum dir que  o mdico. Parece o doente.

 Doente de lstima, disse Avelar
abanando a cabea; por outros termos,  a lstima que me d este ar enfermo.

 Lstima de qu?

 De V.Ex..

 De mim?

  verdade.

A moa riu-se consigo mesma;
todavia esperou a explicao.

Houve um silncio.

No fim dele:

 Sabe, disse o mdico, sabe que
est muito mal?

 Eu?

Avelar fez um gesto afirmativo.

 J o sabia, suspirou a doente.

 No digo que tudo esteja
perdido, continuou o mdico, mas nada se perde em prevenir.

 Ento...

 Coragem!

 Fale.

 Mande chamar o padre.

 Aconselha-me a confisso?

  indispensvel.

 Perderam-se todas as esperanas?

 Todas. Confisso... e banhos.

A viva soltou uma risada.

 E banhos?

 Banhos de igreja.

Outra risada.

 Aconselha-me ento o casamento.

 Justo.

 Imagino que est gracejando.

 Estou falando muito srio. O
remdio no  novo nem desprezvel. Todas as semanas l vo muitos enfermos, e
do-se bem alguns deles.  um especfico inventado desde muitos sculos e que
provavelmente s acabar no ltimo dia do mundo. Pela minha parte nada mais
tenho que fazer.

Quando a viuvinha menos esperava,
Avelar levantou-se e saiu. Falava srio ou gracejava? Dois dias se passaram sem
que o mdico voltasse. A doente estava triste; a tia aflita; houve idia de
mandar chamar outro mdico. Recusou-a a doente.

 Ento s um mdico acertou com a
tua molstia?

 Talvez.

No fim de trs dias recebeu a
viva Lemos uma carta do mdico.

Abriu-a.

Dizia assim:

 absolutamente impossvel
esconder por mais tempo o que sinto por V. Ex.. Amo-a.

Sua molstia precisa de uma ltima
receita, verdadeiro remdio para quem ama,  sim, porque V. Ex. tambm me ama.
Que razo obrigaria a neg-lo?

Se sua resposta for afirmativa
haver mais dois entes felizes neste mundo.

Se negativa...

Adeus!

A carta foi lida com exploso de
entusiasmo; o mdico foi chamado a toda a pressa, para receber e dar sade.
Casaram-se os dois da a quarenta dias.

Tal  a histria da ltima
Receita.
